Domingo, Novembro 08, 2009

Tráfico e guerrilha

Um amigo general enviou-me explicações sobre o fato de traficantes cariocas usarem táticas de guerrilha contra a polícia e outras facções em disputa por controle de território e poder pelas drogas no Rio de Janeiro.
Desta forma, corrigo um post anterior, em que disse que os traficantes não usam táticas de guerrilha. Usam, sim, como o confronto indireto, dispersão na população civil, ausência de frente definidas, busca de apoio político e econômico, coerção de autoridades e ligações transnacionais. Guerrilheiros não precisam defender ideologias. Eles lutam pelo crime e só. Lavagem de dinheiro e tráfico. Não querem acabar com o Estado.
A manutenção do status quo e a falta de vontade política só os beneficia.

Sábado, Outubro 31, 2009

Acidente da TAM: o erro de todos os humanos

Como eu adiantei em junho, a maior probabilidade, segundo a Aeronáutica, é que o piloto, devido à pressão e ansiedade de pousar na pista de Congonhas, acentuada pela dor e pelo stress, tenha errado o procedimento com os manetes, mantendo um em aceleração e provocando o acidente.

O relatório do Cenipa foi perfeito e completo, identificando todos os fatores que contribuiram efetivamente e outros que foram classificados como indeterminados, e que, segundo a investigação, podem ter influenciado no erro de percepção e a falha ativa do piloto. O coronel Fernando Camargo, que chefiou a investigação, diz, conforme eu adiantei na matéria em junho, que "vários fatores podem ter gerado alguma pressão psicológica que pode ter afetado o desempenho da tripulação, fazendo com que o piloto mantivesse um manete em aceleração".

Uma importante questão apontada por Camargo foi a falta de percepção dos pilotos para o que estava acontecendo. Segundo o coronel falou hoje em Brasília, em apresentação da conclusão dos trabalhos aos jornalistas, os pilotos podem ter pensado que o avião estava derrapando e poderia estar ocorrendo uma hidroplanagem, devido ao fato de vários pilotos, antes deles, terem reportado que isso ocorreu em dias de chuva em Congonhas. "A tripulação não conseguiu perceber e entender o que estava acontecendo até o impacto, o que evitou que tomassem uma eventual medida corretiva". Achei este ponto muito importante e que deve ser levado em consideração pelas companhias aéreas.
Não perceber o que ocorre e a falta de algo que os avisasse sobre o que está acontecendo foram fatores que levaram ao acidente.

Errar, todo mundo erra. Medo, todo mundo tem. Erros, foram muitos, de muitos humanos, desde o projeto falho do Airbus, a falta de alarme para a assimetria dos manetes, a liberação da pista para pousos de aeronaves sem um reverso, o treinamento falho, o fato da TAM colocar dois comandantes juntos, sem que nenhum tivesse formação como copiloto e sendo que um acabara de ser introduzido na aeronave A320 e sempre fora piloto de Boeing.

Culpados, não há. Há muitos fatores que contribuíram para uma tragédia. Muita gente errou antes dos pilotos errarem. Eles foram pressionados de todas as formas e induzidos a um erro. Não são os culpados por nada. Eles pagaram com a própria vida em uma tragédia e foram os únicos que tentaram evitá-la até o fim. Eles foram os únicos que não entenderam o que aconteceu. São os únicos que não merecem ser culpados.

Depois de meses falando sobre este acidente, eu aprendi tudo isso com um grande homem. Aprendi que todo voo envolve três fatores: o homem, o meio e a máquina. Eles precisam estar sincronizados. E isso é uma tarefa que requer muito trabalho e muitas dificuldades.

Sábado, Outubro 24, 2009

O Rio, a "guerra" e os "guerrilheiros"

Bastam ocorrerem fatos como a derrubada do helicóptero do GAM (Grupamento Aéreo Marítimo) da PM do Rio - que deixou três policiais mortos há uma semana - e os confrontos entre facções criminosas rivais em favelas cariocas, para a imprensa e supostos especialistas de plantão usarem termos como "guerra" e "guerrilha" para justificar o que acontece. O uso destes termos, em ocasiões em que há violência por parte da população ou de bandidos, enfurece-me e deixa-me indignada. Termos como "guerra" e "guerrilheiros" são totalmente errados para explicar o que acontece no Brasil, tanto em ações de vandalismo, quando favelas se revoltam contra ações policiais (como ocorre com frequência em SP), como nas disputas por favelas pelos traficantes no Rio.

A Cruz Vermelha Internacional, a ONU, e a Convenção de Genebra - documento que delimita as "regras" do Direito Internacional para conflitos bélicos - são unânimes sobre o uso do termo "guerra". Em uma "guerra" é legítimo matar e prender arbitrariamente o inimigo. Somos inimigos, e para vencer, pode-se fazer "quase tudo" (tortura, execução sumária e massacres em massa não são permitidos, nem numa guerra).

O uso do termo "guerra" para explicar o confronto entre a polícia e o tráfico no Rio tende a mostrar uma face obscura do que ocorre. Os PMs e os criminosos podem matar os inimigos arbitrariamente? Matar no Rio é legítimo? Não deveria ser. Mas, cada vez mais, parece que é. Porque matar, no Rio, tende a levar a impunidade. Mas numa "guerra" convencional, conforme a Convenção de Genebra, os combatentes têm direitos e obrigações e serão julgados no Tribunal Penal Internacional por seus atos ilegais. O inimigo preso não pode ser morto. O inimigo preso tem direitos. Os erros cometidos pelos combatentes serão julgados em tribunais de guerra. Não queremos ter uma "guerra" no Rio. Não temos uma "guerra" no Rio. Por favor, não usem o termo "guerra". Os PMs não têm inimigos nos morros. São apenas CRIMINOSOS, sem ideologia nenhuma, sem objetivo de conquistar o país. São apenas traficantes, que querem manter o poder do território e o lucro do tráfico. Dinheiro e poder são o único objetivo deles.

O segundo ponto é "guerrilha". Um especialista de plantão fez um artigo para o jornal Folha de S. Paulo nesta semana dizendo que os traficantes do Rio - leia-se o Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando Puro (TCP) e os Amigos dos Amigos (ADA) - fazem "guerrilha". Longe disso. Os traficantes do CV, da ADA e do TCP nem sabem o que é "guerrilha". Eles não possuem ideologia nenhuma, não possuem posição política nenhuma, não possuem aspirações políticas de poder, não querem conquistar o Brasil. Pelo menos não que a gente saiba. Não são comunistas, socialistas, iluministas ou defendem a reforma agrária e o fim do Banco Central.
Eles têm, sim, controle de parte do território do Rio. Mas não querem mais do que isso. São um bando de criminosos, traficantes, só isso. Chamá-los de quadrilhas, bandos armados, facções, bandidos, até vai. Mas "guerrilheiros" é demais. Eles não querem conquistar a orla da praia do Flamengo, nem o Aeroporto santos Dumont. Não, ainda não. Podemos legitimá-los pelo poder do crime que eles têm, pelo controle de favelas que eles têm. Mas não podemos dizer que são "guerrilhas". Isso não. Eles querem dinheiro, armas e drogas. Ter o direito de andar e mandar naquela favela como bem querem, vender a droga e ganhar dinheiro para conquistar mais favelas e vender mais. Não são guerrilhas com ideologia nenhuma. São BANDIDOS.

E a solução? Temos solução?
Paulativa, devagar, que pode demorar anos, décadas. É uma utopia, mas acho que temos solução, sim. Um plano de governo, de Estado. Mudar tudo. Levar educação, saúde, infraestrutura, presença do Estado e da polícia nas favelas. Só a presença do Estado paulatina é que pode reverter aos poucos a situação. Regulamentar o uso de drogas e a entrada de armas no país não resolverá nada. Os traficantes do Rio são somente um bando de traficantes e criminosos que querem garantir o seu lucro e manter controle de território. Ãgora, depois de perdido o terreno, para o Estado, é difícil reconquistar. São anos de falta de atuação que não se reverte de um dia para outro.
A solução é a RECONQUISTA paulatina de território, por parte da polícia e do Estado. É o que foi feito pelo Exército brasileiro e as tropas da ONU no Haiti e o que está sendo feito com as Unidades Pacificadoras pela PM-RJ.
Entrar, expulsar, ganhar e avançar no terreno, ficar no terreno dominado pelo inimigo. Conquistar o apoio da população é FUNDAMENTAL. Sem a população a favor da mudança, nada ocorre. Subir o morro e não descer nunca mais.Depois que as unidades de força entram neste terreno, o Estado deve vir e trazer a garantia da ordem, dos direitos humanos, da saúde, da educação. Difícil, sim. Muito. É uma utopia pacificar o Rio? É. Mas não é impossível.

O governo e a PM fluminense têm feito bom trabalho. O importante é começar e não parar nunca. Não retroagir. Avançar sempre. Um dia se chega lá. Mesmo que isso demore anos. Eu acredito nisso. O Brasil não é o México, nem a Colômbia ou a Bolívia. O Brasil não é o Sudão, nem Israel. O Rio é diferente de tudo isso.

Parecem ser cenas de guerra. Como jornalista e pós-graduada em relações internacionais, eu peço: Mas não chamem de guerra!

Sábado, Outubro 17, 2009

A vida na prisão

A Veja São Paulo fez uma excelente reportagem sobre a vida dentro da Penintenciária de Tremembé. A foto de capa, com um dos irmãos Cravinhos pintando, é digna de prêmio.
Parabéns ao repórter Caio Barreto Briso.

Vida boa no cárcere
Passamos três dias na penitenciária de segurança média Doutor José Augusto César Salgado, em Tremembé, a 130 quilômetros da capital. Ali estão 296 presos, entre eles Roger Abdelmassih, Alexandre Nardoni, Lindemberg Fernandes e os irmãos Cravinhos, envolvidos em casos de grande repercussão pública

Como os famosos vivem em Tremembé: os irmãos Cravinhos, Roger Abdelasshih, Alexandre Nardoni e Lindemberg.

Sexta-feira, Outubro 16, 2009

Podemos dizer "nunca mais" ?


Ferreira Pinto com o tenente-coronel Telhada, cmte da Rota

‘Novo ataque do PCC é impossível’
Afirmação foi feita ontem pelo secretário estadual de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto
Tahiane Stochero

O secretário estadual de Segurança Pública, Antonio Ferreira Pinto, garantiu ontem ser “impossível” a possibilidade de ocorrerem novos ataques do Primeiro Comando da Capital ( PCC ) em São Paulo. Em 2006, uma onda de atentados atribuídos à facção deixou mais de 50 ônibus incendiados e 564 mortos em apenas uma semana.
“Atualmente, o sistema prisional está sob controle, a possibilidade dos ataques ocorrerem novamente não existe. Esta probabilidade é inadmissível”, disse Ferreira Pinto na tarde de ontem durante a cerimônia de aniversário de 39 anos das Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar (Rota). O secretário serviu como tenente na Rota nos anos 70.
Ferreira Pinto, contudo, disse que, se os ataques se repetissem hoje, ele atuaria da mesma forma que o então secretário de Segurança na época, Saulo de Castro Abreu Filho. Em entrevista exclusiva ao DIÁRIO sobre o filme “Salve Geral”, que trata dos ataques, Saulo disse que a repressão à violência em 2006 foi “correta”, mesmo com o alto número de vítimas — foram 59 policiais mortos contra 505 suspeitos entre 12 e 21 de maio daquele ano.
“Eu concordo com o Saulo. Eu responderia da mesma forma que ele respondeu, com o mesmo rigor, colocando a polícia na rua. A PM agiu na legalidade, não houve excessos”, acrescentou Ferreira Pinto.

Domingo, Outubro 11, 2009

Saulo nega acordo com PCC em 2006

Ex-secretário nega negociação com o PCC em ataques
Tahiane Stochero, do Diário de São Paulo

Quem assiste ao filme "Salve geral", que estreou há uma semana, conclui que os ataques comandados por uma facção criminosa paulista, em maio de 2006, só terminaram porque o governo estadual fez um acordo com o grupo. A versão da história, noticiada pela imprensa na ocasião e confirmada em depoimento no Congresso pelo líder da facção, Marcos Herbas Camacho, o Marcola, é negada pelo secretário da Segurança Pública do estado na época do conflito, Saulo de Castro Abreu Filho.
- Isso não aconteceu, não houve negociação. Eu ainda não vi, mas quero ver. O filme é ficção, são fatos apenas inspirados na realidade, não tem compromisso com a verdade - disse o ex-secretário.
Entre 12 e 21 de maio de 2006, quando ocorreram os ataques, 564 pessoas morreram vítimas de arma de fogo, sendo 59 policiais ou agentes penitenciários, e outros 505 civis. Mais de 50 ônibus foram incendiados, bases policiais e bancos foram atacados e a capital paulista parou. Até hoje, ninguém foi condenado pelos crimes.
- É bom relembrar o que aconteceu, até mesmo para que isso nunca mais se repita. Esquecer a história é ruim. Segurança pública tem que ser discutida - defendeu.
O ex-secretário atua hoje como promotor na Estância Especial do Tribunal de Justiça do Estado, e trabalha em casa. No filme, os personagens que retratam os secretários da SSP e da Administração Penitenciária (SAP) vão a um presídio negociar com o líder da facção, aceitando atender reivindicações impostas pelo crime organizado para o fim dos ataques. Saulo nega que tenha ocorrido tal encontro, e não confirma se foram feitas concessões.
- Foram várias ações (do estado). O conceito do que é concessão ou não é discutível. Todo mundo que estava preso continuou preso. Eu não consigo enxergar nenhum benefício para eles (o PCC), tanto que nunca mais os ataques se repetiram - afirmou.
Titular da SAP na época, Nagashi Furukawa também nega um eventual acordo com a facção.
- O filme é ficção, muito do que mostra não existiu. Eu nunca estive com o Marcola. Não sei de acordo nenhum - reiterou o coronel Elizeu Eclair, comandante da Polícia Militar em 2006.
Para a SSP, hoje "a situação está sob controle. A SAP não se manifestou sobre o assunto.
Lembo com Saulo, em 2006, governador e então secretário de Segurança

O famoso Marcola

Segunda-feira, Outubro 05, 2009

Advogados do PCC presos na PM

Cavalaria da PM vira prisão para advogados do crime
Defensores de bandidos do PCC têm direito até a sala no comando

Três advogados que defendem integrantes da facção criminosa Primeiro Comando da Capital (PCC) estão presos na Cavalaria e em um batalhão da Tropa de Choque da Polícia Militar de São Paulo. Isso porque, de acordo com a lei, eles têm direito a cumprir mandados de prisão temporária ou preventiva não em penitenciárias, mas em uma sala de Estado Maior. Na Rua Jorge Miranda, região central de São Paulo, está localizada a sede da Cavalaria da PM, chamada de Regimento 9 de Julho, onde dois advogados ligados à facção criminosa dividem um quarto de 18 metros quadrados.
Um deles, Ademilson Alves de Brito, de 42 anos, defendeu chefes do crime organizado nos tribunais e foi condenado em julho pelo sequestro de um menino de seis anos na cidade de Arujá, na Grande São Paulo, em 2006. O outro preso, o DIÁRIO não divulga o nome a pedido de sua defesa. Bem em frente, no 2 Batalhão de Choque, responsável pela segurança em estádios, está detida em uma sala a advogada Fabiana Kelly Pinheiro, acusada de tráfico de drogas, formação de quadrilha, ajudar membros do o PCC e abastecer favelas cariocas controladas pelo Comando Vermelho (CV).

‘Não é cela e não deve ter tranca’
O Regimento de Cavalaria Nove de Julho da PM foi escolhido pela Secretaria de Segurança Pública para abrigar presos com direito à sala de Estado Maior, a cela especial de promotores, advogados e juizes. “É uma maneira mais digna de mantê-los sob tutela do Estado”, diz Sergei Arbex, da OAB.
“Não é cela, não deve ter tranca, nem grades. É uma sala”, acrescenta. No Choque, os advogados assistem à TV, comem comida caseira, mas não têm direito ao uso de laptop, telefone ou internet. Desde 1998, promotores acusados de homicídio, como João Trochmann, Thales Schoedl e Igor Ferreira, ficaram presos lá. Em 2007, o advogado Ademilsom Brito, que voltou para a Cavalaria neste ano, tentou suicídio lá dentro. “O cara fica louco”, diz a defesa.


Duas horas de banho de sol
A defesa dos três advogados que estão presos na PM reclama da série de restrições impostas pela corporação, principalmente do tempo determinado para visitas e de banhos de sol, que são de duas horas por dia. “Quando sai da cela, ele tem que ficar caminhando o tempo inteiro em frente aos cavalos, andar em um espaço próximo ao picadeiro, onde ocorrem os treinamentos”, reclama o advogado Adilsom Nascimento, que defende Ademilson Alves de Brito, preso no Regimento de Cavalaria .
“É um local insalubre, com cheiro de urina de animais. Isso é ruim. Já estou pedindo na Justiça para que ele consiga prisão domiciliar”, afirma.
Nascimento e Roberto Reinaldi, responsável pela defesa de Fabiana Kelly, protestam também contra o que chamam de “censura”. “Policiais estão sempre presentes quando visitamos nossos clientes. Ficam escutando tudo. Além disso, todo o papel que eu tenho que entregar para ela é lido antes por um PM”, diz Reinaldi.
Segundo ele, Fabiana não possui banheiro na sala em que está detida no Choque. Questionada sobre as regras, a PM respondeu que “os presos são tratados de acordo com a legislação vigente”.
O presidente da comissão de Prerrogativas da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Sergei Cobra Arbex, confirma: “A lei não exige banheiro na cela do advogado”.