Bastam ocorrerem fatos como a derrubada do helicóptero do GAM (Grupamento Aéreo Marítimo) da PM do Rio - que deixou três policiais mortos há uma semana - e os confrontos entre facções criminosas rivais em favelas cariocas, para a imprensa e
supostos especialistas de plantão usarem termos como "guerra" e "guerrilha" para justificar o que acontece. O uso destes termos, em ocasiões em que há violência por parte da população ou de bandidos, enfurece-me e deixa-me indignada. Termos como "guerra" e "guerrilheiros" são totalmente errados para explicar o que acontece no Brasil, tanto em ações de vandalismo, quando favelas se revoltam contra ações policiais (como ocorre com frequência em SP), como nas disputas por favelas pelos traficantes no Rio.
A Cruz Vermelha Internacional, a ONU, e a Convenção de Genebra - documento que delimita as "regras" do Direito Internacional para conflitos bélicos - são unânimes sobre o uso do termo "guerra".
Em uma "guerra" é legítimo matar e prender arbitrariamente o inimigo. Somos inimigos, e para vencer, pode-se fazer "quase tudo" (tortura, execução sumária e massacres em massa não são permitidos, nem numa guerra).
O uso do termo "guerra" para explicar o confronto entre a polícia e o tráfico no Rio tende a mostrar uma face obscura do que ocorre.
Os PMs e os criminosos podem matar os inimigos arbitrariamente? Matar no Rio é legítimo? Não deveria ser. Mas, cada vez mais, parece que é. Porque matar, no Rio, tende a levar a impunidade. Mas numa "guerra" convencional, conforme a Convenção de Genebra, os combatentes têm direitos e obrigações e serão julgados no Tribunal Penal Internacional por seus atos ilegais. O inimigo preso não pode ser morto. O inimigo preso tem direitos. Os erros cometidos pelos combatentes serão julgados em tribunais de guerra. Não queremos ter uma "guerra" no Rio. Não temos uma "guerra" no Rio.
Por favor, não usem o termo "guerra". Os PMs não têm inimigos nos morros. São apenas CRIMINOSOS, sem ideologia nenhuma, sem objetivo de conquistar o país. São apenas traficantes, que querem manter o poder do território e o lucro do tráfico. Dinheiro e poder são o único objetivo deles.
O segundo ponto é "guerrilha". Um especialista de plantão fez um artigo para o jornal Folha de S. Paulo nesta semana dizendo que os traficantes do Rio - leia-se o Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando Puro (TCP) e os Amigos dos Amigos (ADA) - fazem "guerrilha". Longe disso.
Os traficantes do CV, da ADA e do TCP nem sabem o que é "guerrilha". Eles não possuem ideologia nenhuma, não possuem posição política nenhuma, não possuem aspirações políticas de poder, não querem conquistar o Brasil. Pelo menos não que a gente saiba. Não são comunistas, socialistas, iluministas ou defendem a reforma agrária e o fim do Banco Central.
Eles têm, sim, controle de parte do território do Rio. Mas não querem mais do que isso. São um bando de criminosos, traficantes, só isso. Chamá-los de quadrilhas, bandos armados, facções, bandidos, até vai. Mas "guerrilheiros" é demais. Eles não querem conquistar a orla da praia do Flamengo, nem o Aeroporto santos Dumont. Não, ainda não. Podemos legitimá-los pelo poder do crime que eles têm, pelo controle de favelas que eles têm. Mas não podemos dizer que são "guerrilhas". Isso não. Eles querem dinheiro, armas e drogas. Ter o direito de andar e mandar naquela favela como bem querem, vender a droga e ganhar dinheiro para conquistar mais favelas e vender mais.
Não são guerrilhas com ideologia nenhuma. São BANDIDOS.E a solução? Temos solução?
Paulativa, devagar, que pode demorar anos, décadas. É uma utopia, mas acho que temos solução, sim. Um plano de governo, de Estado. Mudar tudo. Levar educação, saúde, infraestrutura, presença do Estado e da polícia nas favelas. Só a presença do Estado paulatina é que pode reverter aos poucos a situação. Regulamentar o uso de drogas e a entrada de armas no país não resolverá nada. Os traficantes do Rio são somente um bando de traficantes e criminosos que querem garantir o seu lucro e manter controle de território. Ãgora, depois de perdido o terreno, para o Estado, é difícil reconquistar. São anos de falta de atuação que não se reverte de um dia para outro.
A solução é a RECONQUISTA paulatina de território, por parte da polícia e do Estado. É o que foi feito pelo Exército brasileiro e as tropas da ONU no Haiti e o que está sendo feito com as Unidades Pacificadoras pela PM-RJ.
Entrar, expulsar, ganhar e avançar no terreno, ficar no terreno dominado pelo inimigo. Conquistar o apoio da população é FUNDAMENTAL. Sem a população a favor da mudança, nada ocorre.
Subir o morro e não descer nunca mais.Depois que as unidades de força entram neste terreno,
o Estado deve vir e trazer a garantia da ordem, dos direitos humanos, da saúde, da educação. Difícil, sim. Muito.
É uma utopia pacificar o Rio? É. Mas não é impossível.O governo e a PM fluminense têm feito bom trabalho. O importante é começar e não parar nunca. Não retroagir. Avançar sempre. Um dia se chega lá. Mesmo que isso demore anos. Eu acredito nisso. O Brasil não é o México, nem a Colômbia ou a Bolívia. O Brasil não é o Sudão, nem Israel. O Rio é diferente de tudo isso.
Parecem ser cenas de guerra. Como jornalista e pós-graduada em relações internacionais, eu peço:
Mas não chamem de guerra!