Sábado, Novembro 28, 2009

A difícil arte de contar a verdade

Reza a lenda que o jornalista é um contador de histórias. O bom repórter é aquele que sabe ter paciência para ouvi-las e fazer as perguntas certas, para reconta-las nos mínimos detalhes.
Mas, para quem conta histórias, recontar os fatos é uma difícil tarefa.
Outro dia ouvi de uma fonte que "todos estariam do meu lado se eu contasse a verdade". "Verdade?", pensei eu. "Que verdade?".
Eu acredito que, depois do fato ocorrido, não existe mais uma verdade. O que existem são diferentes versões. Cada personagem envolvido na história tem uma visão, uma opinião, uma perspectiva.
Cabe ao jornalista juntar todos os fatos, versões e idéias e tentar recontar o que aconteceu.
Como fazer isso a gente descobre no dia a dia, ouvindo as versões. Não há como estar de um lado ou de outro, mesmo que uma "verdade" prevaleça.
Eu espero que minhas fontes entendam isso. Mesmo que eu defenda uma versão do fato, nada prova que ela é a verdade. Até mesmo as provas, laudos, depoimentos, memórias, palavras são controversas.
Não sei se existe verdade. Existem fatos e versões. Eu só conto todas as elas.

Domingo, Novembro 22, 2009

Nem tudo se resolve com futebol, certo?

Lula quer jogo de paz entre Israel e palestinos
Chico de Góis e Gustavo Paul, do O GLOBO.

A exemplo do que fez no Haiti, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva quer promover um jogo de futebol pela paz no qual a seleção brasileira jogaria contra um combinado de israelenses e palestinos. Lula disse que, na semana passada, já conversou sobre o assunto com o presidente de Israel, Shimon Peres, e com o presidente da Autoridade Palestina, Mahomoud Abbas, e que os dois se mostraram favoráveis à idéia. Para concretizá-la, falta, ainda, conversar com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Ele informou que irá ao Oriente Médio entre os dias 10 e 16 de março, quando a partida poderia ser realizada.
-Estou trabalhando com a ideia de fazer o jogo da paz, como nós fizemos no Haiti. A ideia ainda precisa ter a resposta da própria CBF [Confederação Brasileira de Futebol], porque a gente não sabe o calendário. É apenas uma ideia [de uma partida] da Seleção Brasileira contra um combinado Israel/Palestina - declarou, afirmando, em tom de brincadeira, que ele mesmo poderia jogar.

Se a idéia virar moda, daqui a pouco os americanos marcam uma partida contra o Taleban na fronteira íngreme entre Afeganistão e Paquistão. Chávez entra em campo nas matas da Colômbia, ao lado das Farc, num jogo contra Uribe e suas tropas. O Bope troca o fuzil e a farda por um par de chuteiras e caneleiras para tentar vencer o Comando Vermelho e as mílicas no Rio.
Lula achou a resposta para todos os problemas.
Cabe destacar que o Haiti nunca esteve em guerra e que no jogo de paz promovido lá foram os jogadores brasileiros que entraram em campo contra os haitianos.
Nada comparável com o barril de pólvora no Oriente Médio. Alguém acredita que israelenses e palestinos, representando os seus países, jogariam no mesmo time?



Imagem copiada do blog "Naquadra.blogspot"

Domingo, Novembro 15, 2009

"Vai, mas volta vivo para contar a história"

Já passei por várias situações de risco no jornalismo e aprendi uma máxima: o medo é o melhor amigo. O medo protege.
Quando eu estava na faculdade, prestes a me formar, acreditava que, se um dia eu cobrisse uma guerra e nela morresse, estaria realizando um sonho. Morreria feliz. Que ingenuidade juvenil.
Anos depois, ao conhecer o jornalista José Hamilton Ribeiro, que perdeu a perna ao pisar em uma mina na guerra do Vietnã, ouvi dele a história que sempre repete aos jornalistas iniciantes: "O editor da revista Realidade me disse, quando fui: Você vai, mas vai voltar vivo para contar a história".A mesma recomendação José Hamilton deu ao genro, Sérgio D´Avila, quando este recebeu do jornal Folha de São Paulo a incumbência de ser o primeiro repórter brasileiro a cobrir in loco a guerra do Iraque. DÁvila perguntou ao sogro se deveria aceitar o convite: "Você vai, mas volta vivo para contar a história".
Ao passar por situações de risco no jornalismo, eu aprendi que o medo protege. O grande repórter é o que vai, sente o perigo, não tem medo de recuar, e voltar vivo à redação para contar a história.
Os diversos cursos que fiz para jornalistas em zonas de conflito do Exército e da Cruz Vermelha, a experiência da cobertura com os militares no Haiti e as conversas com jornalistas na ONU me ensinaram muita coisa.
Viver, ver e aprender vale mais do que o perigo. O jornalista deve ter medo, sempre. O medo protege. Quando ele deixa o medo de lado, arrisca-se desnecessariamente.
Sempre fui meio maluca, queria subir um morro do Rio de Janeiro, ver o tráfico, os jovens armados, as bocas de fumo, o terreno onde a polícia não entra. Fiz isso em 2007, quando estava em um grande jornal. Foi o pior e o melhor dia da minha vida. Pior, porque eu poderia ter morrido e ninguém nunca encontraria o meu corpo. Nem eu sei direito em que morro eu estava e com quem. Melhor dia, porque eu fiz o que queria, passei por uma situação de risco enorme que me fez aprender o que não é preciso fazer por uma matéria.
Podia ter morrido e não contaria a história. Valeria a pena ter corrido o risco?!
Pronto, vi, aprendi, mudei meu pensamento. O traficante que eu entrevistei, rodeada por comparsas dele armados de fuzis e metralhadoras - armas antiaéreas que nem no Haiti eu vi- foi morto meses depois pelo Bope (Batalhão de Operações Policiais Especiais).
Hoje, vou para favelas fazer matérias de polícia em São Paulo e coloco a segurança em primeiro lugar. O repórter tem que saber em que terreno está pisando. Se não sabe, não avança.
A matéria, eu aprendi, eu vou ter de qualquer jeito. Colocando-me em risco desnecessário ou não.
Se eu vou colocar-me em risco, devo ter um apoio na retaguarda: polícia, editores, alguém que avalie e que se responsabilize depois pelo que será feito.
Nesta semana, saí correndo para um tiroteio durante o roubo a um carro-forte. No carro, avisei ao motorista do jornal: "Esqueci o colete à prova de balas".
Ele olhou para mim, com cara de preocupado, e respondeu: "Pode ir pegar, eu espero".
Respondi para ele que era brincadeira, apenas um recado de que não precisava avançar se o tiroteio ainda persistisse e não nos colocar em perigo. Alertei o meu chefe: "Eu não quero morrer em uma pauta".
Não tenho medo de nada e encaro as piores pautas possíveis. Mas aprendi que ser repórter, no Brasil ou no mundo, é uma atividade perigosa. É preciso ter consciência disso.
Já dizia o grande José Hamilton Ribeiro: "Repórter bom é o que volta vivo para contar a história".

Sábado, Novembro 14, 2009

A ajuda que vem dos céus


Águia salva dez vidas por semana
Tahiane Stochero

Vem dos ares a ajuda que muitos motoqueiros recebem para sobreviver a acidentes graves, todos os dias, nas ruas de São Paulo. A cada semana, pelo menos dez vidas são salvas na capital pelo helicóptero Águia da Polícia Militar. Ao todo, foram mais de 6.500 pessoas resgatadas em 25 anos de atuação do Grupamento de Radiopatrulha Aérea João Negrão, que possui hoje 16 helicópteros e seis aviões.
Segundo o capitão Marcelo Tasso, comandante do Águia há nove anos, 80% das ocorrências de salvamento do grupo são de acidentes de trânsito, sendo os motoqueiros 80% das vítimas. “Recebemos o alerta que chega à PM pelos telefones 190 e 193 e, dependendo da gravidade, o Águia é acionado”, diz.
Contando com 70 pilotos, o grupamento possui cinco bases no interior do estado. Outras três serão instaladas ainda neste ano em São José do Rio Preto, Piracicaba e Sorocaba. Desde 1984, foram mais de 151 mil missões e 74 mil horas de voo. Cada hora do uso do Águia custa R$ 870 ao governo.
Missões de perseguição
As aeronaves militares não atuam somente em resgate ou transporte de órgãos para transplante. Na história do grupo, 57% das missões foram de ocorrências criminais — como perseguições, rebeliões e apoio às viaturas em terra, transmitindo em tempo real imagens dos confrontos ao quartel-general da Polícia Militar.
Há sempre três equipes do Águia disponíveis. Se uma sirene soa na base, é o helicóptero preparado para o confronto que deve decolar. Se há dois sinais, voa a equipe de resgate, que conta com uma médica civil e um enfermeiro policial. “Atuamos nos confrontos na Favela Paraisópolis, na Zona Oeste, em fevereiro, quando vândalos colocaram fogo em barricadas para impedir a entrada dos policiais. Com um sensor infravermelho, identificamos os focos de incêndio no chão, para ajudar a Tropa de Choque a entrar lá pelas vias liberadas e conter o tumulto”, explica Tasso.

Aeronave já foi alvo do PCC
Se no Rio de Janeiro os traficantes conseguiram abater um helicóptero do Grupamento Aéreo Marítimo (GAM) da PM, deixando três policiais mortos, em São Paulo os integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) não tiveram sucesso em uma tentativa semelhante.
Em 7 de novembro de 2008, bandidos roubaram mais de R$ 150 mil de um banco em Guarulhos, na região metropolitana. Na fuga, foram perseguidos pela polícia no Jaçanã, Zona Norte da capital. Foi quando o Águia , que apoiava as viaturas em terra, foi atacado por criminosos. Um dos disparos de fuzil passou raspando pelo piloto e atingiu o teto da aeronave, que teve que desviar dos tiros. Mesmo danificado, o helicóptero seguiu na missão.
Em ocorrências criminais, além das tradicionais pistolas .40, os policiais levam a bordo do Águia submetralhadoras, como a Beretta 9mm, e até mesmo fuzis calibre 5.56. Se for necessário, eles podem disparar do ar contra veículos e pessoas. Tiroteio em ação Em uma perseguição em novembro passado, PMs foram obrigados a atirar do Águia contra um caminhão roubado de uma transportadora, na tentativa de pará-lo.
“Na fuga, os bandidos colidiram o caminhão contra viaturas na pista local da Marginal Pinheiros, atravessaram o canteiro e entraram na via expressa, atropelando pessoas. Atiramos de metralhadora contra o caminhão, mas ele não parou. A Polícia Rodoviária Estadual fechou a Rodovia Castello Branco com uma carreta e os ladrões jogaram o caminhão dentro do Rio Tietê. Tentaram fugir nadando, mas o Águia se aproximou e eles se renderam”, lembra um oficial.


Entrevista: Capitão Wander Satil de Souza, Piloto do helicóptero da PM há nove anos
‘Toda missão é sempre imprevisível’
DIÁRIO — Qual é a maior dificuldade em voar no Águia?
CAPITÃO WANDER — O maior problema é sempre o pouso. Temos que escolher um local perto da vítima a resgatar sem que isso atrapalhe o trânsito. É difícil. O Águia tem autorização para pousar em qualquer lugar. Paramos sobre lajes de prédios, garagem de ônibus, campos de futebol, rodovias. Onde o Águia couber com segurança.
Você lembra de algum fato curioso ocorrido em um voo?
Há dois anos, estava voltando de uma missão de perseguição à noite quando sobrevoamos uma mata e o flyer (câmera com infravermelho que denuncia a presença de calor) mostrou que havia um corpo dentre as árvores. Achamos que podia ser um bandido em fuga e acionamos o policiamento em terra para investigar o caso e entender do que se tratava. Para a nossa surpresa, era um homem bem vestido, de classe média, que disse estar dormindo no matagal. Achamos estranho, devia ser algum maluco para dormir no mato.
Qual é a melhor parte do trabalho aéreo?
Quando a sirene soa, partimos sem saber o que realmente está ocorrendo e o que vamos encontrar pela frente. Toda missão é sempre imprevisível.

Domingo, Novembro 08, 2009

Tráfico e guerrilha

Um amigo general enviou-me explicações sobre o fato de traficantes cariocas usarem táticas de guerrilha contra a polícia e outras facções em disputa por controle de território e poder pelas drogas no Rio de Janeiro.
Desta forma, corrigo um post anterior, em que disse que os traficantes não usam táticas de guerrilha. Usam, sim, como o confronto indireto, dispersão na população civil, ausência de frente definidas, busca de apoio político e econômico, coerção de autoridades e ligações transnacionais. Guerrilheiros não precisam defender ideologias. Eles lutam pelo crime e só. Lavagem de dinheiro e tráfico. Não querem acabar com o Estado.
A manutenção do status quo e a falta de vontade política só os beneficia.

Sábado, Outubro 31, 2009

Acidente da TAM: o erro de todos os humanos

Como eu adiantei em junho, a maior probabilidade, segundo a Aeronáutica, é que o piloto, devido à pressão e ansiedade de pousar na pista de Congonhas, acentuada pela dor e pelo stress, tenha errado o procedimento com os manetes, mantendo um em aceleração e provocando o acidente.

O relatório do Cenipa foi perfeito e completo, identificando todos os fatores que contribuiram efetivamente e outros que foram classificados como indeterminados, e que, segundo a investigação, podem ter influenciado no erro de percepção e a falha ativa do piloto. O coronel Fernando Camargo, que chefiou a investigação, diz, conforme eu adiantei na matéria em junho, que "vários fatores podem ter gerado alguma pressão psicológica que pode ter afetado o desempenho da tripulação, fazendo com que o piloto mantivesse um manete em aceleração".

Uma importante questão apontada por Camargo foi a falta de percepção dos pilotos para o que estava acontecendo. Segundo o coronel falou hoje em Brasília, em apresentação da conclusão dos trabalhos aos jornalistas, os pilotos podem ter pensado que o avião estava derrapando e poderia estar ocorrendo uma hidroplanagem, devido ao fato de vários pilotos, antes deles, terem reportado que isso ocorreu em dias de chuva em Congonhas. "A tripulação não conseguiu perceber e entender o que estava acontecendo até o impacto, o que evitou que tomassem uma eventual medida corretiva". Achei este ponto muito importante e que deve ser levado em consideração pelas companhias aéreas.
Não perceber o que ocorre e a falta de algo que os avisasse sobre o que está acontecendo foram fatores que levaram ao acidente.

Errar, todo mundo erra. Medo, todo mundo tem. Erros, foram muitos, de muitos humanos, desde o projeto falho do Airbus, a falta de alarme para a assimetria dos manetes, a liberação da pista para pousos de aeronaves sem um reverso, o treinamento falho, o fato da TAM colocar dois comandantes juntos, sem que nenhum tivesse formação como copiloto e sendo que um acabara de ser introduzido na aeronave A320 e sempre fora piloto de Boeing.

Culpados, não há. Há muitos fatores que contribuíram para uma tragédia. Muita gente errou antes dos pilotos errarem. Eles foram pressionados de todas as formas e induzidos a um erro. Não são os culpados por nada. Eles pagaram com a própria vida em uma tragédia e foram os únicos que tentaram evitá-la até o fim. Eles foram os únicos que não entenderam o que aconteceu. São os únicos que não merecem ser culpados.

Depois de meses falando sobre este acidente, eu aprendi tudo isso com um grande homem. Aprendi que todo voo envolve três fatores: o homem, o meio e a máquina. Eles precisam estar sincronizados. E isso é uma tarefa que requer muito trabalho e muitas dificuldades.

Sábado, Outubro 24, 2009

O Rio, a "guerra" e os "guerrilheiros"

Bastam ocorrerem fatos como a derrubada do helicóptero do GAM (Grupamento Aéreo Marítimo) da PM do Rio - que deixou três policiais mortos há uma semana - e os confrontos entre facções criminosas rivais em favelas cariocas, para a imprensa e supostos especialistas de plantão usarem termos como "guerra" e "guerrilha" para justificar o que acontece. O uso destes termos, em ocasiões em que há violência por parte da população ou de bandidos, enfurece-me e deixa-me indignada. Termos como "guerra" e "guerrilheiros" são totalmente errados para explicar o que acontece no Brasil, tanto em ações de vandalismo, quando favelas se revoltam contra ações policiais (como ocorre com frequência em SP), como nas disputas por favelas pelos traficantes no Rio.

A Cruz Vermelha Internacional, a ONU, e a Convenção de Genebra - documento que delimita as "regras" do Direito Internacional para conflitos bélicos - são unânimes sobre o uso do termo "guerra". Em uma "guerra" é legítimo matar e prender arbitrariamente o inimigo. Somos inimigos, e para vencer, pode-se fazer "quase tudo" (tortura, execução sumária e massacres em massa não são permitidos, nem numa guerra).

O uso do termo "guerra" para explicar o confronto entre a polícia e o tráfico no Rio tende a mostrar uma face obscura do que ocorre. Os PMs e os criminosos podem matar os inimigos arbitrariamente? Matar no Rio é legítimo? Não deveria ser. Mas, cada vez mais, parece que é. Porque matar, no Rio, tende a levar a impunidade. Mas numa "guerra" convencional, conforme a Convenção de Genebra, os combatentes têm direitos e obrigações e serão julgados no Tribunal Penal Internacional por seus atos ilegais. O inimigo preso não pode ser morto. O inimigo preso tem direitos. Os erros cometidos pelos combatentes serão julgados em tribunais de guerra. Não queremos ter uma "guerra" no Rio. Não temos uma "guerra" no Rio. Por favor, não usem o termo "guerra". Os PMs não têm inimigos nos morros. São apenas CRIMINOSOS, sem ideologia nenhuma, sem objetivo de conquistar o país. São apenas traficantes, que querem manter o poder do território e o lucro do tráfico. Dinheiro e poder são o único objetivo deles.

O segundo ponto é "guerrilha". Um especialista de plantão fez um artigo para o jornal Folha de S. Paulo nesta semana dizendo que os traficantes do Rio - leia-se o Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando Puro (TCP) e os Amigos dos Amigos (ADA) - fazem "guerrilha". Longe disso. Os traficantes do CV, da ADA e do TCP nem sabem o que é "guerrilha". Eles não possuem ideologia nenhuma, não possuem posição política nenhuma, não possuem aspirações políticas de poder, não querem conquistar o Brasil. Pelo menos não que a gente saiba. Não são comunistas, socialistas, iluministas ou defendem a reforma agrária e o fim do Banco Central.
Eles têm, sim, controle de parte do território do Rio. Mas não querem mais do que isso. São um bando de criminosos, traficantes, só isso. Chamá-los de quadrilhas, bandos armados, facções, bandidos, até vai. Mas "guerrilheiros" é demais. Eles não querem conquistar a orla da praia do Flamengo, nem o Aeroporto santos Dumont. Não, ainda não. Podemos legitimá-los pelo poder do crime que eles têm, pelo controle de favelas que eles têm. Mas não podemos dizer que são "guerrilhas". Isso não. Eles querem dinheiro, armas e drogas. Ter o direito de andar e mandar naquela favela como bem querem, vender a droga e ganhar dinheiro para conquistar mais favelas e vender mais. Não são guerrilhas com ideologia nenhuma. São BANDIDOS.

E a solução? Temos solução?
Paulativa, devagar, que pode demorar anos, décadas. É uma utopia, mas acho que temos solução, sim. Um plano de governo, de Estado. Mudar tudo. Levar educação, saúde, infraestrutura, presença do Estado e da polícia nas favelas. Só a presença do Estado paulatina é que pode reverter aos poucos a situação. Regulamentar o uso de drogas e a entrada de armas no país não resolverá nada. Os traficantes do Rio são somente um bando de traficantes e criminosos que querem garantir o seu lucro e manter controle de território. Ãgora, depois de perdido o terreno, para o Estado, é difícil reconquistar. São anos de falta de atuação que não se reverte de um dia para outro.
A solução é a RECONQUISTA paulatina de território, por parte da polícia e do Estado. É o que foi feito pelo Exército brasileiro e as tropas da ONU no Haiti e o que está sendo feito com as Unidades Pacificadoras pela PM-RJ.
Entrar, expulsar, ganhar e avançar no terreno, ficar no terreno dominado pelo inimigo. Conquistar o apoio da população é FUNDAMENTAL. Sem a população a favor da mudança, nada ocorre. Subir o morro e não descer nunca mais.Depois que as unidades de força entram neste terreno, o Estado deve vir e trazer a garantia da ordem, dos direitos humanos, da saúde, da educação. Difícil, sim. Muito. É uma utopia pacificar o Rio? É. Mas não é impossível.

O governo e a PM fluminense têm feito bom trabalho. O importante é começar e não parar nunca. Não retroagir. Avançar sempre. Um dia se chega lá. Mesmo que isso demore anos. Eu acredito nisso. O Brasil não é o México, nem a Colômbia ou a Bolívia. O Brasil não é o Sudão, nem Israel. O Rio é diferente de tudo isso.

Parecem ser cenas de guerra. Como jornalista e pós-graduada em relações internacionais, eu peço: Mas não chamem de guerra!